Falcão: Meninos do Tráfico

A Rede Globo exibiu ontem à noite Falcão: Meninos do Tráfico, documentário do rapper MV Bill e do produtor Celso Athayde. O programa deveria ter ido ao ar há uns dois anos, mas um imbróglio judicial envolvendo os produtores e a emissora adiara a exibição. Enfim, isso não importa. O que vale mesmo é a reflexão sobre as imagens de meninos e meninas da mais tenra idade à serviço do tráfico de drogas em diversas cidades do país. É isso que o documentário propõe. Então, vamulá:
1. O Estado brasileiro simplesmente não existe pra imensa maioria dos brasileiros. Há uma quantidade absurda de gente que, neste exato momento, vive num mundo totalmente diferente do meu e do seu, que lê este blog. Os meninos do tráfico mostrados ontem juntam-se às meninas de 8 anos que se prostituem por cinqüenta centavos no Nordeste, à população da zona da mata que não tem o que comer, às crianças que fazem malabarismo nos sinais, aos idosos humilhados nas filas do INSS, aos pacientes que morrem sem socorro nos hospitais públicos, aos..., aos..., a lista é interminável. É triste constatar, mas crianças traficando drogas são apenas uma foto no álbum de horrores em que se tornou o Brasil dos delúbios, valérios e outros filhos da puta. Vivemos numa republiqueta de bananas. E bananas podres.
2. Só existe tráfico de drogas porque há consumo de drogas. Essa é a mais rudimentar das leis de mercado. É preciso acabar com a hipocrisia da vitimização do usuário, típica da classe média. É ele, usuário, tão somente ele, quem fomenta a circulação de dinheiro nos morros. Lógico que isso não significa dizer que todo usuário deve ser preso, mas há que se pensar, sim, em penas restritivas de direitos, prestação de serviços comunitários e tratamentos de saúde bancados pelo poder público. E isso me leva ao próximo tópico.
3. O uso de drogas é uma questão de saúde pública, não apenas de polícia. Sua descriminalização precisa deixar de ser tabu. Precisamos discutir o assunto com a seriedade que ele merece, deixando emoção, religião, preconceitos e outras influências de lado. Já há um projeto de lei sério sobre o assunto, de autoria do deputado Fernando Gabeira, mas ninguém tem peito de sequer discutí-lo. Somente encarando o tema de frente, de forma racional, poderemos pensar em soluções objetivas que, no longo prazo, poderão salvar milhares de vidas. Pense que sempre haverá o consumo. Agora, imagine a venda de drogas sendo controlada pelo Estado, com toda a sua carga tributária sendo revertida pra campanhas de educação e programas de reabilitação de dependentes químicos. Isso pode reduzir drasticamente o mercado negro da droga e o poder paralelo que foi criado em torno dele, diminuindo a escala de violência. Ninguém vai deixar de usar drogas porque é proibido, do mesmo modo que ninguém passará a usá-las caso o consumo venha a ser permitido. As nossas convicções são formadas pela família, pelo círculo social, pela educação que recebemos, e não por uma lei dizendo o que pode ou não pode ser feito. Ou alguém precisa que o Código Penal diga que é proibido matar para não matar? Portanto, decidir pela descriminalização é um ato de caráter eminentemente prático.
4. Ainda não há registro de plantações de maconha e folha de coca nos morros cariocas. Tampouco existe uma fábrica da Colt lá em cima. Ou seja, as drogas e os AR-15 chegam ali por algum outro meio. Sufoque este meio (fronteiras, portos e aeroportos) e tá resolvido o problema. Simples assim. Resta saber que interesses seriam feridos com isso.
5. E, por último mas não menos importante, gostaria de dizer que o tráfico não é uma realidade inexorável pr'aqueles jovens. Sempre haverá uma alternativa ao crime. Sempre. Não acreditar nisso implica dizer que 100% dos moradores de comunidades carentes são bandidos, o que, obviamente, não é verdade. Há pessoas que conseguem dizer não, mesmo diante da adversidade.








